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De voleio no ninho da coruja – Por Hermélio Silva

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De voleio no ninho da coruja

17.3.19

Não me lembro o ano ao certo, mas fomos jogar futebol contra o Corumbaense, na cidade de Corumbá, no estado de Mato Grosso do Sul, e era a oportunidade para conhecermos o Pantanal. Ao lado tem uma cidade chamada Ladário, que tem um porto fluvial e uma Base da Marinha. De Corumbá para a Bolívia é um pulo.

Imagina um lugar longe, até no nome que significa “lugar distante”. Pegamos uma jardineira aqui em Rondonópolis, e fomos parar em Campo Grande, que é a capital do estado hoje, mas na época os dois estados eram unos.

Eu jogava no famoso União de Rondonópolis, que dá nome a cidade, desculpa, é a cidade que dá nome ao time, e que ganhou de um comandante militar que tem as seis primeiras letras do nome da cidade, ou do time, não sei, já faço algumas confusões na minha cachola, pois acho que tenho Parkinson, pois ando esquecendo muito das coisas de antigamente.

Tudo era festa. Embarcamos num trem em Campo Grande e fomos parar em Corumbá. Tudo era lindo. Já no desembarque notamos umas belas e bem vestidas moças a nos acenar dando boas-vindas. Mirei uma delas e dei uma piscadela, ela desavergonhadamente respondeu. Pensei logo: “é aqui que eu amarro a minha égua”.

Fomos todos para uma pensão. Hospedamos dois em cada quarto. O técnico era rabugento e ficava controlando tudo. Como chegamos no dia do jogo não deu tempo para ver o Pantanal e as coisas belas do local, mas uma delas, das belas, acabei revendo quando saímos para o almoço, num local próximo a pensão, pois ela estava numa esquina, acho que esperando nós passarmos, pois a vi de longe com suas vestes verde-cana, e o meu coração deu uma acelerada, e como um bom boleiro tornei a dar outra piscadela e ela me devolveu um sorriso que nunca mais vou esquecer. Tomei coragem e a abordei, perguntando se iria assistir ao jogo e ela me respondeu que sim. Prometi um gol em sua homenagem e ela me respondeu com um sim batendo palmas com as mãos à altura do busto, talvez me provocando.

Na volta do almoço ela já não estava mais, e aquela mulher entrou no meu cérebro como uma invasão paraguaia. Na soneca acho que até sonhei com ela, não me lembro direito. O técnico começou a berrar chamando todos nós para uma preleção na pensão. Ele falou um monte, mas não me lembro de uma palavra, e ainda acho, que não me lembraria no momento, porque uma mulher tinha me encantado. Chegamos ao estádio, digo campo de futebol. Eu cheguei olhando para todos os lados, todas as aglomerações procurando alguma silhueta verde-cana e nada. Estava dentro do campo me aquecendo, junto aos demais companheiros, olhava para as traves e ficava imaginando como vencê-las, pois, sabia que aqueles olhos cor de mel iria ver o meu gol, e iria oferecer a ela, onde estivesse, por isso que queria localizá-la antes do jogo para eu correr na direção certa.

Eu era titular absoluto naquele time, acho até que eu sobrava no time, pois logo em seguida fui convidado para atuar noutros escretes. O técnico ranzinza nos chamou para uma última palavra. Foi duro, como sempre e queria o resultado positivo. Lembro-me porque já estava mais concentrado no jogo, talvez pela pretensão de fazer um gol. Um trio de juízes vestidos de pretos, com as golas das camisas em branco apitou insistentemente para os times entrarem em campo. Quando entrei vi a prenda do lado direito do nosso ataque, pois já havia sorteado os lados. Ela estava mais linda ainda, com um vestido alaranjado em degradê. Acenei e ela respondeu. Fiz um sinal para ela ficar no mesmo lugar, apontando o dedo indicador direito para chão próximo ao meu pé. Acho que ela entendeu, porque sacudiu a cabeça e abriu aquele sorriso inefável.

O jogo teve o primeiro tempo morno. No segundo tempo notei que ela inverteu o lado, continuando à direita do nosso ataque, acho que ela entendia de futebol. Aos 22 minutos, num ataque rápido pela esquerda e o ponta-esquerda – tinha pontas naquela época – cruzou a bola de capotão e a defesa defendeu de cabeça, parcialmente. A bola veio em minha direção e pensei num relance de segundos: “é a minha chance”. Pulei para alcançar a altura correta da bola, que vinha caindo, mas não vinha para cabeceio, muito mais para cima do meu peito. Entortei o meu corpo para a esquerda e levantei o pé direito, com a impulsão certa acertei a bola num voleio à Bebeto na Seleção Brasileira, na Copa América de 1989, contra a Argentina. A bola viajou e eu a orientava com os meus olhos para ela não sair do rumo, como se isso fosse possível. Foi alguns segundos, entretanto passou um turbilhão na minha cabeça. A bola ia na direção certa, o goleiro pulou só para aparecer na foto mesmo. A bola entrou no encontro superior das traves, no lado direito do gol. Eu ainda estava no ar quando vi a “bochecha” da rede estufada com a imagem da bola abraçada pela rede. Fui ao chão, alguns colegas corriam para me abraçar, mas eu saí em disparada para oferecer aquela plástica fotográfica futebolística para a mulher mais linda do mundo, que me abraçou e tascou um beijo no meu rosto. Ela tinha um cheiro diferente, gostoso, que ainda hoje, décadas depois, sinto relembrando essas histórias do futebol que tanto me encantaram.

Não me lembro de parte do jogo, porque eu ficava revendo o replay do gol na minha memória, que agora eu não esqueço. E quando a bola vinha eu procurava tocar logo para algum companheiro e ficava “filmando” a beldade à beira do campo. Quando numa jogada o meio-campista passou a bola ao meia-direita eu me desloquei para a grande área, no lado esquerdo. O colega me viu e eu corria para a pequena área observando o posicionamento do meu marcador e da bola para não ficar impedido. Ele avançou com a bola pela direita e cruzou forte, eu subi para cabecear e foi um impacto também forte, como eu gostava que fosse para a bola tornar-se indefensável, e não é que a bola entrou no mesmo lugar do gol anterior… corri ainda mais que após o primeiro gol. Queria sentir o calor daquele abraço de antes e sorver o cheiro daquela bela mulher. Tudo se repetiu. E, ainda hoje fico na dúvida se a lembrança do cheiro dela é do primeiro ou do segundo gol, desculpa, do segundo abraço.

Juro que não me lembro o resultado do jogo, mas um dia ainda vou pesquisar para ter a certeza. Após o término fui abordado pela belíssima, mas antes eu estava ali no meio dos jogadores enrolando o tempo, porém ficava “filmando” de longe para onde ela ia. Falei que iria jantar no mesmo restaurante e ela me falou que estaria lá para conversarmos.

Coloquei a roupa de ver Deus, quando vou à missa, alguns sprays do desodorante e juntei-me aos demais para irmos jantar. Eram 19h34 quando a vi próximo à entrada do local onde ia jantar. Falamos coisas triviais e disse a ela que após o jantar iríamos todos para o hotel, pois era uma exigência do técnico, mas que ela me esperasse ali às 20h30 que iria ao seu encontro. Ela combinou comigo e não vi o tempo passar. No hotel falei ao meu colega que iria pular a janela para tomar uma pinga e já voltava, mas ele já sabia que eu estava enredado com aquela gata. O técnico acho que não dormia, pois ficava andando no corredor para ver se nós estávamos mesmo dormindo. Saí quietinho. Lá estava ela, linda como antes. Uma roupa diferente com umas rendas brancas no vestido, que tinha umas alças feito tiras e tudo era verde claro e branco, verde de novo.

Já nos abraçamos muito e ela me convidou para ir a sua casa que ficava em Ladário. Aceitei na hora e fomos numa Rural Willys verde e branca, que combinava as cores com o vestido daquela morena maravilhosa. O veículo fazia essas corridas, como se dizia. Lá, ela me apresentou a sua mãe e ficamos conversando sobre tudo, principalmente dos dois golaços que eu fiz. Menti muito também. Tomamos refresco de tangerina e à cada momento eu me encostava mais naquela morena. Em certo tempo ficamos sós e começamos a namorar efusivamente.

De longe ouvi um barulho de trem. Mais um pouco e o apito ressonou quase nos meus ouvidos. Era o outro dia. Só aí me dei conta que o nosso retorno seria no primeiro trem, o das nove. Num disparate juntei todas as minhas coisas e me vesti. A morena acordou assustada e eu lhe falei que estava atrasado e o trem já ia partir. Ela falou para eu pegar o trem no outro dia e ficar ali. Achei a proposta excelente, mas a minha carreira de jogador de futebol iria para o brejo, porque não teria explicação plausível, até porque havia fugido do hotel, contrariando ordens expressas do técnico, que era o chefe da delegação. Ela ainda fez um café e dei-lhe um beijo de despedida. Peguei outro veículo e fui para a pensão, pedindo pelo amor de Deus para o motorista acelerar aquela geringonça. No hotel não tinha mais ninguém. Peguei minha mala e fui para a estação de embarque no mesmo carro que havia pedido ao proprietário para aguardar, porque já desconfiava do atraso. Na plataforma de embarque me informaram que o trem havia partida havia alguns minutos. Impensadamente pedi ao motorista para irmos atrás do trem e fomos, em dado momento ficamos lado a lado e eu acenava para o maquinista parar para eu embarcar, como se isso fosse possível. Meus amigos me reconheceram e davam risadas avisando para eu acompanhar o trem. Depois de um tempo voltei para a cidade e fui direto para a casa da mato-grossense e ficamos a namorar. Aproveitei para conhecer o Pantanal, o porto, as ruelas e reviver aquele amor que só ela é capaz de oferecer. Peguei o trem das noves no outro dia. Em Campo Grande fui até a rodoviária e tinha uma passagem reservada e paga para mim. Cheguei a Rondonópolis e no outro dia fui ao treino. Chegando lá no bambuzal, fui recebido pelo técnico que soltava fogo pelas ventas, dizendo:

– Não tem justificativa! Vai direto pro banco! Tem que me respeitar sinhô!

 

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