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Coisas de vó – Por Hermélio Silva

Fonte:

Coisas de vó

5.7.15

Obra de arte: Professor Paulo Branco, artista plástico e caricaturista.

 

Ansiedade a mil. O avião pousa sereno em Viracopos, na cidade de Campinas, Estado de São Paulo. Ao descer a escada da aeronave sinto que o frio continua com a mesma intensidade do lado de fora. O contrário de onde eu embarcara. Já próxima à esteira rolante, que começou a funcionar, vejo de longe a minha mala prateada e a apanho com pressa. Saio com a mesma rapidez e de longe vejo meu netinho de três aninhos, cada vez mais esperto e inteligente. Adjetivos mais comuns das avós para seus netos. Um pouco atrás está meu genro, que me aponta falando algo para o seu filho. Ele me identifica mesmo com tanta distância e, vem correndo em minha direção. Não tem alegria maior, não tem dinheiro que paga isso!

Aquele sorriso, aquela correria, os olhinhos dirigidos exclusivamente a mim, aqueles braços abertos, demonstrando que estava morrendo de saudades da vó. Só sabe disso quem é avó. Agachei-me para lhe abraçar. Um abraço gostoso com toda força que ele tinha e eu queria que nunca terminasse. Não sabia se ria ou chorava. Na dúvida e em público, resolvi sorrir, apenas, mas choraria sem cerimônias. Levantei-o comigo e nos olhamos. Tocamos os narizes com os próprios, balançando as cabeças na horizontal, por algumas vezes, como de costume. Ele me abraçou e apontou para o seu pai. Saí com ele nos meus braços puxando a mala.

Pegamos a estrada para a casa deles. O pai dirigindo, eu e o meu neto no banco traseiro em conversas intermináveis. Quando chegou ao estacionamento da moradia, ele me falou:

– Vovó, você vai ficar na minha casa. Não é para sair do carro.

Rimos, mesmo sem entender o que ele me dizia. Ríamos de tudo. Coisas de vó. Tenho que fazer consultas médicas e exames laboratoriais a cada três meses, naquela cidade, mas esse encontro é o melhor de tudo. Acho até que é um bom remédio – aliás, necessário medicamento.

Após o jantar que fui entender a mensagem dele sobre não sair do carro. Era para eu não sair tanto de carro para as visitas médicas e ficar mais tempo com ele em sua casa.

– Vovó vai ficar muito tempo aqui dentro do seu apartamento. Disse-lhe.

Os olhos deles brilharam intensamente e me deu um sorriso maravilhoso. Chorei por dentro de tanto amor. Como criança é autêntica, ainda mais um netinho. O apartamento era no primeiro andar, não era tão grande, sempre nos trombávamos, às vezes ele dormia comigo, noutras assistíamos à Galinha Pintadinha diversas vezes. Eu já sabia todas as músicas e episódios. Repetíamos assim mesmo.

Num início de noite fomos para o playground. Não tinha nenhuma outra criança para ele brincar. As suas bolas estavam furadas. Peguei um saco de balinhas e ficamos degustando. Pela janela do quarto dele, peguei algumas roupas que estavam na cama e usei para forrar o gramado para sentarmos e depois deitarmos para olhar as estrelas. Só tinha duas estrelas visíveis em todo o firmamento, daquele ângulo que estávamos. Fiz algumas fotos com o celular para registro à posteridade, e claro, colocar no Facebook. Coisas de vó. Ficamos olhando as estrelas. Foi muito gostoso, ríamos muito. Fazíamos selfies e tentamos ligar para outra filha que morava ainda mais longe, mas não conseguimos. Fingimos falar assim mesmo. Eu falava e ele repetia. Quando cansamos dessa brincadeira, lhe falei:

– Tá vendo aquela estrela. É sua, a vovó lhe dá de presente.

Ele ficou em pé, colocou as mãos na cintura, olhou para mim e falou assim:

– Não, Vovó!

– Porquê não? – Achei que ele não queria.

Levantou o braço, como se tentasse alcançar a estrela e falou:

– Não pode.

Achei tão engraçado. Chorei na hora e agora ao contar a história. Depois que passou tudo eu me toquei, que ele era muito pequeno para pegar a estrela que estava lá no alto.

Eu ria muito e disse que iria pegar a estrela para ele. Ele balançava a cabeça querendo dizer que eu também era pequena e não alcançaria a estrela. Meu netinho dizia que não podíamos e abria os braços para mostrar o seu tamanho e apontava em seguida para mim, como se quisesse falar do meu tamanho. Entendi e rimos demais. Cansados, voltamos ao prédio e fomos dar continuidade às nossas traquinices. Coisas de vó, com seu netinho de três anos.

Dias depois, já tendo retornado à minha distante cidade tive um sonho que me deixou intrigada. Sonhei que estava construindo uma escada enorme para apanhar a estrela para meu neto. Ele também estava no sonho e segurava o equipamento com toda força do mundo, e pedia para eu subir:

– Sobe vovó. Eu seguro. Traga duas estrelas…

Acordei. Coisas de vó.

 

 

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