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Vida de Lavadeira


| Fonte: Zico da farmácia

O olhar de uma criança sobre a vida não corresponde à realidade do adulto; porém, quando “crescem”, com as experiências que a dinâmica do viver proporciona, vão alterando o seu jeito de ser. Surgem novos saberes, que as tornam seres necessários, mas, por vezes, esquecem que a felicidade está no ser simples. Coisas de adulto? Talvez.

Comigo, não foi diferente. Memórias “permanentes” foram preservadas, e hoje me fazem reviver os tempos de infância. Despertam em minhas lembranças os ritos cotidianos da meninice e, com eles, a possibilidade de perceber que, na construção da história de vida das pessoas, existem outras tantas que não são ditas.

Ingenuamente, eu pude vivenciar um dos mais belos rituais proporcionados por minha mãe em seu trabalho. Na sua lida doméstica, um labor repetitivo, que, de forma ritmada, tomava conta do seu dia: a rotina de lavadeira.

Sua luta era permeada por longos silêncios, e era possível perceber satisfação em seu rosto. O quintal era o espaço conquistado, ali estava o seu varal pesado de roupas. Os seus procedimentos habituais eram: molhar, ensaboar, esfregar, bater, quarar, enxaguar, torcer, secar, passar, dobrar e entregar as roupas limpas e secas que não mais lhe pertenciam.  Pertencia-lhe a alegria do dever cumprido, e, em seu olhar, era perceptível o brilho da certeza de um futuro melhor. Assim, nós, os filhos, crescemos orgulhosos da sua relação afetuosa com a vida.

A sua identidade era total, pois estava inserida em seu quintal e incluída em sua existência. Acredito que, em seus momentos de quietude, ela “desenhava” o caminho a ser seguido pelos filhos. Deixou-nos, como herança, a honestidade e o bom humor. O riso fácil era contagiante. Lamentar, jamais. Eu e os meus irmãos sabíamos que a vida não lhe sorria, mas ela sorria muito para a vida. E, desta forma, se fez uma pessoa única, humana e amada. Hoje, aos oitenta e poucos anos, é capaz de “abraçar” uma vassoura e sair dançando e cantando. Fato que faz a família dizer em coro: “Ela é preciosa!”

Em seu lugar de fala, se moldou realidade e resistência, tornando fértil o sonho de um lugar ao sol. Com a sua rotina, nos ensinou: o respeito ao próximo; a importância de fazer o bem e o “servir” como receita para se autorrealizar… Pensando assim, não restaram dúvidas: esses aprendizados que tivemos foram transmitidos com o mais lindo dos sentimentos:  o Amor.  E é por isso que gratidão e fé nos fazem acreditar que a moldura de Deus na terra é ela!

A sua benção, mãe.

 

 

Zico da farmácia.

Morador em Rondonópolis.

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