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Dois pasteis de frango e uma tubaína – Por Hermélio Silva


| Fonte:
Nilza Marinho da Silva

Dois pasteis de frango e uma tubaína

 

Eram dezoito horas e trinta minutos, dois dias antes do Dia dos Pais de 2019, um bom evento realizado no Brasil. Eu levava meu filho e meu sobrinho para a faculdade, quando o meu telefone tocou e ouvi:

— Meu filho, esqueceu que vamos à feira? Esqueceram de mim? – A última frase é uma marca registrada dela.

— Claro que não dona Nilza, mas marcamos às dezenove horas. Já chegarei aí.

Dona Nilza era seu nome de batismo e como eu a chamava carinhosamente. Mineira de Januária, não perdia o trem nunca. Ela sempre fala que os janeiros pesam muito, entretanto tenho que afirmar aqui que ela já carrega 80 deles nas costas.

Estacionei na frente da sua casa, desci e já ia bater palmas quando ela levanta de uma cadeira de fios, colocada estrategicamente na parte escura da garagem, para economizar luz e ficar à espreita do movimento da sua predileta rua. Levei um susto, mas ela é assim mesmo. Estava pronta e já foi falando:

— Vamos?

Ela abriu o portão da garagem, saiu e trancou. Entramos no carro e nos rumamos para a famosa feira. Estacionamos num lugar onde um casal nos recebeu, mas parece que eles tinham problema de mudez, pois não falaram conosco.

A feira é um colosso a ser contemplada, muitas coisas acontecem ali que merece uma crônica própria, mas vamos andar com a dona Nilza no recinto, após passar pela primeira entrada, quando as pessoas vendem seus produtos ao relento. Depois andamos mais um pouco e noutra entrada para uns quiosques fomos abordados por um jovem que vendia frangos, já abatidos e limpos, prontos para o cozimento, e a minha mãe não deixou passar em branco, quando falou-me:

— Isso é frango ou peru? Muito grande!

Perguntou o preço e o rapaz respondeu que era R$ 35,00 a peça. Ela declinou da compra e continuamos a andar, bem devagar, pois ela reclamava dos 80 janeiros, sempre. Paramos na barraca de uma sua conhecida, dona Maria, vendia farinha. Elas conversaram sobre a associação da terceira idade e outros assuntos. Quando esgotou o assunto, graças a Deus, porque também tinha outros compradores ao redor e a dona Maria precisava atender. Falei:

— Na volta compramos a farinha.

— Não quero farinha. – Respondeu-me ríspida.

Calei-me. Depois sugeri comermos pastel. Ela concordou e encomendamos dois de frango e uma garrafa de tubaína. Eu, como sempre, comi só a massa e deixei o frango. Ela comeu um terço do pastel e já embrulhou para levar o restante para casa e juntou a sobra do meu. Iria levar para os netos que moram com ela. Disse que já estava cheia e não queria mais, mas queria mesmo era ter comido pamonha.

— Por que não falou? – Perguntei.

— Não queria magoar você. – Respondeu.

— Vamos dividir uma pamonha? – Ela respondeu que não aguentava, mas iria levar três para casa.

Também comprei três pamonhas doce, só que minha mãe comprou noutro quiosque diferente do meu. Fiquei intrigado, mas não perguntei o porquê. Ficamos a andar na feira, ouvindo um som alto que incomodava e com mais propaganda que músicas. E, foi ela quem reparou.

Sentimos o cheiro dos temperos e tantos outros produtos. Visualizamos no nosso campo de visão um mundo de coisas, desde torresmos, doces, roupas e a feira quase num todo. Preparando para sair ela compra uma dúzia de espigas de milho verde. A sacola que ela sempre leva à feira já estava pesada e como não a largava, eu já adiantei e peguei a sacola com o milho, que já ia pesar muito. Paramos em quase todas as barracas até o portão de saída, e não é que ela achou que o milho da última barraca, já na calçada estava mais vistoso que aquele que ela havia comprado? Parou e comprou quatro espigas.

Atravessamos a rua, pagamos o estacionamento e tomamos o rumo de volta, quando ela falou:

— Só você mesmo meu filho para deixar tudo que tem para fazer, para me levar na feira. Fico muita agradecida.

Ela não sabe que meus olhos ficaram rasos d’água e que lá no fundo o meu coração encheu de felicidades, no entanto é ela quem me dá o prazer de poder acompanhá-la no mundo de uma feira e aprender ainda mais, com sua humilde simplicidade.

10.08.2019.

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1 COMMENT

  1. D.Nilza, tive o prazer de conhece la, tive o prazer de sua visinha, conheci ela através dos seus netos q ficaram amigos do meu filho (Hiago) , ela nos agraciava com seus biscoito de polvilho que delícia !! lembrava da minha familia também mineira… D. Nilza pessoa querida e Amorosa te desejo vida longa…

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