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Copo d’água – Por Hermélio Silva


| Fonte:
Obra de arte: Paulo Branco, artista plástico e caricaturista.

Copo d’água

7.4.11

– Porra, véio! Que negócio é esse de você entregar apenas trezentos e oitenta e cinco reais para a empresa? Fui eu que passei a fita pra você e o saque foi de mil contos, véio! – disse dando uma prensa no cara.

– Esse é o valor correto… Senhor… O tio saiu do banco e passou duzentos contos para uma pessoa na banca de revista. Acompanhei ele por três quadras e, quando vi que podia entrar noutro banco dei o bote…, a grana tava no bolso esquerdo da frente, que dificultava pegar, e daí caiu trinta contos, por isso que só passei aquele valor. Foi o combinado, metade pro Senhor e a outra metade para a nossa equipe de três parceiros – falou-me o enquadrado, ofegante.

Pianinho – falei com rispidez.

Sentei numa cadeira próxima do cara. Dois assistentes da empresa acompanhavam a operação. O cara já tinha tomado uns mergulhos para amolecer os miolos. Senti que o cara não estava mentindo, mas eu precisava mijar nos cantos, para não deixar espaço para ninguém crescer na empresa e correr o risco de desejarem o meu lugar. Eu precisava afirmar quem mandava naquele pedaço. Com meus 44 anos de idade não podia demonstrar moleza naquela ação. Galguei espaço na empresa degrau por degrau e não ia deixar um noiado qualquer me apunhalar pelas costas. Minha cor morena e meus cabelos negros completavam a feição fechada e de durão. Todos me chamavam de Senhor.

Os negócios estavam bem controlados e o meu trampo principal eram as cobranças de contas atrasadas, principalmente a favor dos agiotas. Era um negócio só meu. Assumi o bico das saidinhas de banco por trombadões, porque tinha um tempo vago e nem todo dia precisava trampar. Eu comandava três elementos. Nossa operação era só através de furto. Nada de 157. Não gosto muito de trabalhar com latrô, nesse negócio. Expõe-se muito. Só que a metade da minha parte era da empresa. Não podia haver dúvida, porque a cobrança era com firmeza.

Apalpei minha cintura e senti que as pistolas estavam comigo. Tirei uma delas e coloquei em cima de uma cadeira que estava vaga, mas bem próxima de mim. Claro que retirei o pente. Olhei nos olhos do cara e depois para a pistola e falei:

vendo aquela quadrada ali? Suei para aprender a usar, pois tem que ter sangue nos olhos para apertar o dedo. Vou propor um negócio pra você, seu vacilão. Primeiro, esperou três quadras para atacar a vítima. Segundo, por ter deixado cair parte da grana de uma coisa para qual foi muito bem treinado. Terceiro, para aprender a prestar contas corretamente, explicando todos os detalhes para não colocar em dúvida você, seus amigos e eu. Você vai completar os quinhentos contos da diferença agora e não falamos mais nisso, ou quer tomar um copo d’água?

– Tudo bem Senhor… Tudo bem – disse o cara.

– Vai mudar de região e não quero mais trabalhando no meu grupo. Me entregue o chip do seu celular porque tem ligações minhas aí e se você cair não me leva. Se liga vacilão! Vaza – falei com os olhos vidrados nos olhos do cara, sentindo o seu bafo quente em soluços.

Acompanhei o negócio 155 para ver se o cara não tinha virado um traíra. Estava tudo sob controle e já tinha encontrado o substituto do cara e outro para fazer a leitura e ficar ligado na agência bancária escolhida, pois era eu quem estava fazendo até então. Apareceu um novo corre para fazer, de cobrança, que era meu carro-forte, ou melhor, meu carro-chefe.

Eu e um mano fomos visitar o devedor de um empresário que nos contratou. Ele me deu um cheque num valor alto, estava com o valor atualizado no verso, já tinha recebido mais da metade, mas, devido aos juros, já tinha ultrapassado o valor nominal do documento. Era uma grana preta; a comissão dava para eu trocar de carro. A capivara indicava um passado não tão limpo e que o devedor sumira e não dava retorno. Depois de seguir o mané por um bom tempo, descobrimos que ele trabalhava na sua empresa no período noturno, depois que a maioria dos funcionários ia embora.

No dia do bote ele chegou e imbicou o carro na garagem esperando o portão eletrônico abrir. Imediatamente estacionamos logo atrás dele. Não dava para ele sair de ré. O parceiro desceu e correu na frente do carro dele com a pistola na mão, intimidando e mandando-o entrar e estacionar, escondendo a arma do raio da câmera e tirando dele a oportunidade de esperar para entrar no limite possível para fechar o portão e nós ficarmos do lado de fora. Imbiquei atrás com o nosso carro. O portão fechou. Desci com a quadrada na mão. O mané estava tentando ligar pelo celular. A porta do carro estava travada. Bati com o cabo metálico da pistola no vidro com força e o cara abriu a porta. Eu ia quebrar mesmo. O sangue já tava no zói. Tomei o aparelho e a situação quando engatilhei a quadrada na boca dele. Retirei a bateria do aparelho. O cara tava mais branco do que fantasma.

– Viemos buscar a grana do doutor – falei por duas vezes no ouvido dele, frisando a palavra buscar e mostrando o cheque.

– Ahn… – grunhiu o mané.

– Vamos subir ao escritório e garanta que somos seu convidado. Já filmamos o segurança da empresa e ele não nos incomoda.  Mostrei o dedo médio e indicador, numa posição que formava um olho. Não temos medo das câmeras porque você sabe o que queremos. Não viemos fazer cobrança, viemos receber. Então suba demonstrando que somos da casa. Senão vai ter um pipoco por aqui. Copiou? – falei com toda convicção.

Subimos ao quinto andar. Eu fazia o papel do bruto, o que era natural para mim. Meu colega era calmo, duma calmaria que me preocupava, porque eu nunca o vi errar um tiro na vida. O mané juntou uma grana e colocou em cima da mesa. Disse que estava juntando para pagar a conta. Calculei que ainda faltava a metade. Ele afirmava que não tinha mais nada. Pedi um tempo ao meu colega e fui para o corredor pensar um pouco.

Havia um vão no meio do prédio, tipo um jardim de inverno. Fiquei encostado no parapeito e tive uma ideia. Chamei meu colega e o mané para aquele lugar. Sentei na mureta com as pernas para dentro. Apontei a pistola para minha cabeça e fiquei olhando a reação do devedor. Ele ainda estava branco e, agora perplexo, sem nada entender. Meu amigo interveio:

– Olha que ele tem coragem de atirar no próprio ouvido. É um doido. Vai sujar as paredes, o piso, sua empresa e sua reputação, com um suicídio aqui.

– Ahn… – o devedor usou seu grunhido novamente.

Acho que ele não havia entendido a mensagem. Fiquei um tempo esperando para ver se a ficha dele caía. Estava mudo, mas nervoso. Repeti que não estávamos ali para cobrar ninguém, apenas queríamos receber o combinado. Fiquei brincando de tirar e colocar o pente da arma. Era uma mania. Ele coçou a cabeça, o que demonstrava que estava procurando uma saída. Senti que era o momento e falei para o mané, ao mesmo tempo em que descia da mureta:

– Sei que a maioria de vocês tem uma arma no escritório, mas, se não tiver vou pegar emprestado a do segurança. Senta ali na mureta. Se não morrer com um tiro, morre na queda.

– Ahn… – repetia o cara.

– Precisa não. Tenho um berro raspado aqui – disse meu amigo entregando um revólver envolto num plástico, que era para não ter impressões digitais dele e amedrontar nossa presa. Tudo armado.

– Podem levar o carro, meu relógio eu garanto que pago tudo – conseguiu falar o devedor.

– Mais dois cheques para um e dois meses, da diferença – completei.

– Tudo bem – respondeu.

Deixei o cheque que levamos na mesa do mané. Juntei tudo que negociamos e coloquei na bolsa, dizendo:

– Espero não voltar aqui como mensalista.

Meu parceiro dirigia o meu carro. Saí atrás dele. Combinamos nos encontrar no posto para deixar o novo carro para lavar, polir, encerar e esquecer ele por uns dias por lá, para ver se não aparecia alguma treta com ele. O pessoal de lá já me conhecia.

Já na estrada de volta, dirigindo o meu mais novo carro, que agora não era dublê, cabrito ou finan. Curtia os acessórios que não conhecia. Liguei para o empresário dizendo que o passarinho estava na mão e ele queria propor pagar a dívida pela metade do valor que me foi passado; reclamava do acréscimo de juros e taxas. O pagamento seria em dinheiro vivo. Insistia em dizer que estava quebrado. Criei um clima para induzir que aquele valor era o que eu já tinha exprimido do mané. Perguntei se o empresário não queria negociar por telefone diretamente com o devedor. Senti que o meu contratante ficou nervoso e não quis falar com o mané. Quase falei do crime de usura. Era o momento de aplicar o golpe que eu tinha arquitetado após um exaustivo e minucioso trabalho intelectual:

– Chefe, é melhor pegar isso aqui ou nada, pois estou doido para dar outro sacode bem dado nesse moço. Posso fechar o negócio? – eu mesmo dei um grunhido como se fosse o devedor.

– Pode sim. Tava perdido mesmo. Vamos sacudir e rachar – ele deu a senha.

Dei um murro no painel e outro grunhido. Desliguei e liguei ao meu amigo:

– Ficamos com o último cheque. Seus vinte por cento do cheque, só quando vencer o pré-datado. Já passo aí para lhe pegar.

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