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RESSACA POLÍTICA – George Ribeiro


| Fonte:
George Ribeiro

Quem já encheu a cara sabe que o exagero pode causar um mal-estar danado no dia seguinte. Além de enjoos, da forte sede, ainda existe a confusão mental que traz à memória alguns recortes que podem ser constrangedores. Já dizia Reginaldo Rossi, “todo bebum fica chato, valente e tem toda a razão”.

O desequilíbrio das ações, das emoções, é uma das características de quem entra na cachaça. Quem nunca, não é? Porém o bom senso no consumo de todas as coisas ainda é um fator que assegura a saúde (das relações sociais, inclusive).

Nessa vertigem situacional, a política é um assunto que tem igualmente causado náuseas em muita gente. O leitor já deve ter conferido em algum momento sobre a chamada “ressaca política”.

É possível refletir aqui uma ideia relativa sobre o que seria essa expressão que toma forma, sobretudo neste período de excessos.
Assim como a ressaca marítima se diz da movimentação atípica e mais violenta das águas que rebenta sobre si mesma, por variações do ambiente, toda essa exacerbação está levando muitas pessoas tratarem de assuntos políticos com a mesma acometividade.

Nesse cenário que ocorre de grande disputa de opiniões, boa parte desses fulanos se embebedam de informações ou desinformações para apoiar-se sobre seu prisma ideológico, robustecendo aquilo que previamente acreditam.

Da mesma maneira que beber sozinho é diferente de encontrar aquela turma, os pensamentos ganham reforço no outro e atinam o imaginário quando se está em grupo de iguais. Chegou a galera!

Os “unidos venceremos”, uniformizados, seguem para o enfrentamento. Alguns com suas prerrogativas pessoais, utilizando de seus quesitos emocionais, boa parte sem a devida leitura de mundo, de conteúdo, sem dados pertinentes, outros ignorando o processo histórico, num total desequilíbrio, senso comum, fakenews, destempero, ufa, falta de lucidez, compaixão, gritaria – eita, pileque!

Quando a disputa não se resolve no campo das ideias, resta virar a mesa da intolerância e partir para as agressões pessoais. Chamem o segurança, pelo amor…!

Ao acordar pela manhã, à luz do sol do meio-dia, os conhecidos sintomas presentes. Nada mais revelador que o tempo para amadurecer nossos pensamentos, redefinir nossa convicção e providenciar novo comportamento. No entanto, os destaques dessa analogia não cessam por aqui.

Existe a amnésia alcoólica e coisas terríveis, porém essenciais para o aprendizado, perdem-se na memória também. Esse é o pior resultado que se tem de uma noitada de bebedeira: não reconhecer como ela foi inconveniente, insensata, inaceitável. Há profissionais na área da saúde que recomendam que é melhor que se deixe que o alcoolista limpe sua própria sujeira para assim quem sabe ao menos prolongar o tempo da reincidência.

Em razão dessa ressaca, existe a possibilidade de comparar a memória mais antiga com a mais recente, ter a segurança do presente que nos dá a liberdade de buscar as informações de um passado ruim para evitar um perigo iminente ao nosso organismo social.

Portanto não dá para restabelecer a saúde violentando a si mesmo, tampouco tropicar e se escorar nos muros dos fuzilados, deslizar nos corrimões que figuram o pau-de-arara ou cambalear pelas calçadas tingidas pelos sangues dos torturados – abraçar o seu algoz – e se esquecer disso com o tempo. Engov ou cianeto?

Importa restabelecer-se da tontura, desintoxicar-se da bebedeira, injetar na veia bons livros de história.

(*) George Ribeiro é servidor da Rede Estadual de Ensino, Porta-voz municipal da Rede Sustentabilidade, ativista socioambiental e poeta, membro da Academia Rondonopolitana de Letras, cadeira número 9.

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