Home Artigos Vamos ao Teatro Municipal Marechal Rondon? – Por Hermélio Silva
fullhome_2

Vamos ao Teatro Municipal Marechal Rondon? – Por Hermélio Silva


| Fonte:
Foto: Cesar Augusto

Na idade do Cobre o homem já habitava o território rondonopolitano, no estado mato-grossense, na região do Ponte de Pedra, conforme estudos realizados por 12 pesquisadores brasileiros, oito franceses, um mexicano, um marroquino e um português, no sítio arqueológico Ferraz Egreja. Um espaço pequeno e acidentado, onde se distingue áreas locais pesquisadas, que indicam que houve ocupações e reocupações. É um morro que tem a forma de um cogumelo, que dá um bom abrigo, próximo a um riacho.

São mais de 5.000 anos, no entanto me vejo sobrevoando num “drone” e assistindo suas reuniões num descampado próximo ao morro com escritos rupestres – onde participei de um filme interpretando um bruxo, nos idos do final do milênio passado. Nessa viagem imaginária notei os primatas fazendo uma “virada cultural”, com performances de danças desengonçadas, degustando víveres diversos, bebendo a água límpida do riacho, desenhando nos paredões as representações rupestres, que testemunham a concepção dos laços sociais de uma cultura, e participando de uma peça naquele teatro, talvez de arena. Um próprio público que ainda buscamos, no limiar do segundo decêndio do milênio atual.

Agora, sobrevoo os tropeiros que pousavam na chamada “Campinas de Mato Grosso”, que era um bairro rural da Vila de Jundiaí, estado de São Paulo, no ano de 1767. Com o tempo perdeu parte do seu nome e tornou-se a terceira maior cidade daquele estado. Vi os tropeiros, ao seu tempo, adentrar-se cada vez mais no mato e aproximar-se do nosso estado mato-grossense.

Acompanhei a confusão que fazemos com o nome da Rosa Bororo: índia, mito, nome de lancha ou de rua. Resolvi pesquisar e até assistir pictoricamente a apresentação da professora Marli Auxiliadora de Almeida, da Unemat, num simpósio em 2003, lá na Paraíba, sobre nossa Rosa e contar aquela versão, que julgo ser a correta.

Bom, posso afirmar com todas as letras da ficção que eu estava no momento em que capturaram a bela Rosa Bororo e a entregaram aos militares. Os Bororo eram divididos em três subgrupos: da Campanha, Cabaçal e Coroado, este último a que Rosa Bororo pertencia. Aprisionada com suas duas filhas, Cibáe Modojebádo – a Rosa Bororo foi levada a Cuiabá no início de 1881 e adotada pela família de Thomaz Antonio de Miranda. A cerimônia de transformação de Cibáe em Rosa aconteceu na paróquia do Bom Jesus de Cuiabá, no mês de maio de 1882, onde recebeu o nome cristão de Rosa Miranda. Uma apresentação teatral das mais belas. Deixa para lá, pois foi na capital.

Voltando a Rondonópolis, vejo nos anos seguintes, os índios Bororo executando suas apresentações teatrais para seus pares, no estertor do século XIX, talvez interpretando a sua própria decadência provocada pela aproximação e exclusão pelos novos ocupantes da sagrada terra.

Registro a chegada dos milicos que acamparam no Ponte de Pedra, mas precisamente no ano de 1875. Os aventureiros vêm em seguida, no cheiro do ouro e das preciosidades. Na sequência chegam as expedições das Linhas Telegráficas, do Primeiro-Tenente Cândido Rondon, para ligar Mato Grosso e o Amazonas ao Brasil. O teatro é representado em 1922 com a inauguração do posto telegráfico, na beira do Rio Vermelho, e vejo com meus olhos que a terra há de comer, que houve uma apresentação cultural à altura, talvez uma missa, uma benção e um reisado, com um tambor de couro de teiú.

Goianos, cuiabanos e outros povos iniciam o povoamento da cidade. Era o ano dois do século passado, e aí tenho certeza que os catireiros ou outros saberes são representados nos teatros da vida, quem sabe debaixo de um pé de pequi, em frente a uma venda ou bolicho, se é que já tinha isso mesmo. Uma década depois posso afirmar que as 70 famílias que aqui residiam já se preocupavam com a educação e ganharam do estado, uma reserva de 2.000 hectares para a povoação. Acho que o foguetório comeu solto e os discursos eram a peça principal, se não, a “rádio peão” foi sintonizada.

Só podia ser um tenente para tratar da mudança de nome para homenagear o Marechal Rondon. E fê-lo. Uma encenação bem preparada e de boa argumentação. Havia fofocas das mais diversas e esse era o diapasão das coxias do teatro a céu aberto, posso ver quando fecho meus olhos.

Meados desse tempo medido em 100 anos, nossa cidade passa por um período de desconstrução, acho que até o teatro ruiu, ou ruiria se existisse. Houve epidemias, enchentes, intrigas e a descoberta de diamantes na região de Poxoréu. Tudo isso poderia ser assunto para uma nova peça teatral. E foi. E foi uma debandada para a cidade-mãe e vizinha. Fácil de achar um título chamativo.

Era o ano de 1953 e já emancipados. A peça de fundo era a expansão agrícola, com meeiros e desmatamentos. Chegavam povos de todas as partes. Eu cheguei no bico duma cegonha em 1958 e fui desembarcado na confluência da avenida Marechal Rondon com a rua Rio Branco, bem na Praça dos Carreiros.

Do alto do aparelho que citei no início ficava espreitando de soslaio, o Maestro Marinho com seu sax amarelo-ouro puxando uma trupe da igreja matriz para a recepção do casamento. Todos bem vestidos a andar no areão da rua como se fosse uma passarela. Era uma peça de teatro itinerante.

Em 1970 temos o boom da soja, pecuária e do comércio, com migração sulista. Uma década depois tornamo-nos a segunda cidade do estado em economia e população. Época da “Capital Nacional do Agronegócio”, ao mesmo tempo em que cresce o setor agroindustrial. Insumos, venenos, ganância e dinheiro. Cultura “do soja”, como dizem os novos povos. Cadê o teatro?

Já metrópole, no século XXI assistimos ao avanço de Rondonópolis no setor industrial.

O “templo romano moderno” é reinaugurado em Rondonópolis, noutro local. É o novo estádio “Engenheiro Luthero Lopes ”, com capacidade para 17.000 pessoas. Um gaúcho até no nome faz o primeiro gol, era o ano de 2000. Bem, passamos a ter um teatro de arena, mas para o esporte.

Três anos depois os próceres Aires José Pereira e Elias da Silva, criam a música do nosso hino e os demais, Aires José Pereira, Elias da Silva e Sebastião Assis de Carvalho escrevem o poema, entram para a história, mas não tem teatro para fazer um evento à sua altura.

Ainda nesse ano Rondonópolis ficou em polvorosa, quando montaram um circo mambembe para recepção do presidente Lula, e milhares de pessoas assistiram seu discurso na entrega do Residencial Ana Carla, que já era um espetáculo por si, tanto a entrega, como o discurso. E o teatro nadica de nada.

Em outubro de 2004, após a campanha vitoriosa de Adilton Sachetti a prefeito, o meu amigo e marqueteiro Francisco de Lagos foi contratado para coordenar o projeto do Teatro Municipal de Rondonópolis. O arquitetônico seria montado por estudantes de engenharia de Campo Grande (MS), com a supervisão do Zé Renato, e eu faria o projeto incentivado. Fizemos e aprovamos no Artigo 26, com o valor de R$ 8.692.013,67, mas tornou-se inviável, uma vez que a dedução do imposto de renda pelas empresas participantes era de apenas 40%. Depois de muitas idas e vindas, desistências, insistências, pois o IPHAN alegava que não se patrocinava patrimônios materiais que não fossem tombados. Já assistindo em Campinas (SP), descobri que uma biblioteca foi construída com verba da Lei Rouanet e entrei com o recurso, que foi aceito. Depois entrei com outro recurso para mudar de local, da rodoviária velha para o horto florestal e aumentar o valor, uma vez que glosaram diversas rubricas, como o restaurante do primeiro piso. Conseguimos aprovar no Artigo 18, o montante de R$ 11.214.513,60, mas só captaram uma pequena parte e desistiram do projeto, devolveram o dinheiro e prestaram contas. Ainda bem, que pagaram os meus préstimos.

Fiquei um tempo fora da cidade. Conheci inúmeros teatros e cito dois como exemplos: Santa Isabel (Recife-PE) e Karl Marx (Havana-Cuba), que são lugares de encantamento. E a sedução foi tamanha que o meu Trabalho de Conclusão de Curso, em Marketing foi: “Difundir institucionalmente a marca, manter e buscar novos assinantes da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas”, baseada naquele tempo no Centro de Convivência Cultural de Campinas “Carlos Gomes”, e se apresentava no teatro “Luís Otávio Burnier”, no mesmo conjunto arquitetônico.

Retornei em 2011, mas não me saiu da cabeça as campanhas pelo “Teatro Já”, encampado pela inesquecível Professora Edith, das apresentações do Mestre Carivaldo, das peças teatrais do Maurílio e Joelson, das feiras com seus personagens, das praças desocupadas ou ocupadas por tribos inapropriadas, e da vontade de um povo em ter seu próprio teatro público.

O teatro mambembe retornou em 2013, na inauguração do terminal ferroviário, pela presidente Dilma Rousseff. Tudo muito lindo. Apenas 300 convidados e imprensa, mas teve carteiradas. Governador, prefeito, presentes, títulos e a rotunda ainda não era preta.

Revejo as fotos do Matusalém Teixeira e do Rivian Dias e fico imaginando os cinemas, circos, praças, exposições e tantas outras imagens, mas que falta alguma coisa para termos o endereço certo com a qualidade que o nosso povo merece: um teatro municipal de verdade. Esse é meu pedido a Deus!

 

23.4.16

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here